Página destinada ao trabalho da disciplina de Psicologia: ciência, ética e profissão, ministrada pelo professor Dímitri Moita, onde abordaremos o tema: Psicologia e as Relações Étnico Raciais.
Psicologia as Relações Étnico-Raciais
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Foto: Família e suas escravas domésticas no Brasil, Revert Henry Klumb,1860/Wikimedia Commons
As relações étnico-raciais, quando abordadas no Brasil, são vistas correlacionadas a temas como história, sociologia, economia ou até mesmo o direito, e, embora o tema esteja evidentemente associado ao campo da psicologia, muito pouco se tem relacionado sobre estes dois temas.
Nossa Constituição, datada de 1988, categorizou o racismo como crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão. Porém, embora seja necessário admitirmos um avanço legislativo neste ponto, ele não tem impedido e muito menos evitado que discriminações e ofensas de cunho racista se espalhem de forma desenfreada na internet, como também fora dela.
No âmbito do discurso científico, a humanidade do preto só foi reconhecida de forma explicita no Brasil, no ano de 1900, mais de uma década após a abolição da escravatura (Rodrigues, 1932). Raimundo Nina Rodrigues, médico de formação, foi o primeiro a investigar as características psicológicas dos escravos e ex-escravos, onde forneceu material necessário para a confirmação do preto como sujeito psicológico.
Imagem: Portal-Goiás
Certamente o pensamento de Nina Rodrigues é racista, ainda mais na sociedade atual. Todavia, claramente inovador para a época, tendo em vista que foi o primeiro a reconhecer a subjetividade do preto. Até sua investigação, os pretos eram vistos como uma massa unificada, não individualizada. Sua abordagem permitiu que a psicologia os visse como seres humanos.
Segundo Alessandro de Oliveira dos Santos, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia (IP) da USP, a psicologia no Brasil se estruturou em recorrência dos estudos das relações étnico-raciais. Diz Santos que: "Quando se observam os primeiros autores que ministraram a disciplina Psicologia Social no Brasil – Raul Briquet, Arthur Ramos, Donald Pierson –, verifica-se que todos eles estavam ligados aos estudos das relações étnico-raciais, com ênfase nas relações entre brancos e não brancos [negros, indígenas, orientais]”, discorreu.
Entre as décadas de 1930 e 1950, foi instaurada a desconstrução do determinismo biológico na psicologia elaborada no Brasil. Em decorrência do término da Segunda Guerra Mundial, o descobrimento dos crimes nazistas e do horror do holocausto, é se colocado em dúvida a raça como classificação biológica. Desta forma, a UNESCO, achou por bem promover um estudo sobre o Brasil, no qual, segunda esta, havia existido uma "acomodação pacífica" das relações étnico-raciais entre brancos e negros.
Imagem: Questões Étnicos-Raciais: como educar para uma sociedade mais igualitária e sem preconceitos? Disponível em: <https://www.fazendohistoria.org.br/blog-geral/oficinaquestoes-etnicos-raciais>. Acesso em: 3 maio. 2023.
A pesquisa realizada pela UNESCO, foi bastante inovador, visando a pesquisa de como os alunos em seus grupos escolares se relacionavam com seus colegas, e demonstravam atitudes de intimidade, aproximação ou rejeição, com base na cor da pele. E qual seria a influência familiar na formação dessas preferências e preconceitos. Porém, após a instituição da ditatura militar, e ainda mais depois do fechamento total do regime, em 1968, a temática das relações étnico-raciais, passou a ser tratado como uma questão de segurança nacional, e posto fora de discussão. Apenas na década de 80, é retomado os assuntos sobre o tema, com a justificativa de abordagem cultural.
Em 1990, as pesquisas sobre o tema tomaram uma proporção mais política, juntando-se com as lutas identitárias e contra o preconceito. Nesta mesma época vemos ocorrer um fenômeno denominado epistemologia, onde os pesquisadores brancos entenderam que, ao fazer o preto ou o indígena seu tema de estudo, eles estavam mais uma vez segregando, uma população que por diversas vezes foi desprezada, sendo assim, entenderam por bem estudar a branquitude e o branqueamento, e em volta de si mesmos, colocar a autoimagem do branco em questão.
Porém, em relação a branquitude, uma pesquisa realizada por Alessandro de Oliveira dos Santos, onde foram entrevistados diversos alunos e professores de Psicologia, conseguimos vislumbrar que esta ainda não emergiu como algo a ser percebido, visto que a maioria dos entrevistados utilizavam o termo "raça", apenas para se referir a pretos. A consciência de que brancos também são sujeitos racializados, ainda é perceptivelmente rasa.
Ainda, segundo Alessandro Santos, os psicólogos entrevistados pouco tinham conhecimento sobre as características históricas e sociais das relações étnicos-raciais no país, bem como os efeitos psicossociais do racismo. Como já dissemos, os psicólogos que se autodenominaram brancos, não se enxergaram como seres racializados, atribuindo a categoria "raça", apenas para outros grupos, em especial aos pretos.
Uma família brasileira do século XIX sendo servida por escravos, pintado por Jean-Baptiste Debret, c. 1830
Para a realização desta pesquisa utilizamos de vários artigos científicos e pesquisas de diversas universidades renomadas no Brasil, ainda assim, é necessário dizer que foi de extrema dificuldade nosso aprofundamento no tema, tendo em vista que o assunto é pouco abordado.
Interessante colocarmos aqui, que uma pesquisa realizada por estudantes de Pós-Graduação do curso de Psicologia, da Universidade Federal Fluminense, revelou que de 750 artigos sobre psicologia publicados no Brasil, apenas 1,5% (11 artigos) abordam a população negra e problematizam as relações raciais. Ou seja, embora a maior parte da população brasileira não seja branca, ainda pouco sobre este fato é abordado.
SANTOS, A. DE O. et al. Publicações nas revistas de psicologia e relações raciais. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 72, n. SPE, p. 6–17, 2020.
Como complementação ao nosso blog, trazemos aqui alguns artigos, livros e vídeos que poderão ser utilizados para um maior entendimento e aprofundamento sobre o tema tratado:
1. Caderno Étnico Racial - O Caderno Étnico Racial é uma cartilha publicada pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná, que tem como título "Psicologia e relações Étnico-Raciais - Diálogos sobre o sofrimento psíquico causado pelo racismo". Este Caderno Temático tem como objetivo explicar o sentido social do racismo e seus efeitos psíquicos, apresentar a amplitude do racismo nas relações intersubjetivas das diferentes áreas da psicologia (como educacional e saúde) e por fim, levantar reflexões acerta das práticas profissionais relacionadas às questões étnico-raciais também em diferentes áreas de atuação;
2. O livro "Pequeno Manual Antirracista" - Neste livro, a filósofa e ativista preta Djalma Ribeiro, nos trás onze lições sobre a imagem do racismo e de que maneira seria possível combate-lo: “Informe-se sobre o racismo”, “Enxergue a negritude”, “Reconheça os privilégios da branquitude”, “Perceba o racismo internalizado em você”, “Apoie políticas educacionais afirmativas”, “Transforme seu ambiente de trabalho”, “Leia autores negros”, “Questione a cultura que você consome”, “Conheça seus desejos e afetos”, “Combata a violência racial” e “Sejamos todos antirracistas”.
Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro [Resenha] – Conversa de Português. Disponível em: <https://conversadeportugues.com.br/2022/03/pequeno-manual-antirracista-de-djamila-ribeiro/>.
3. O vídeo "Atuação do Psicólogo no tema das Relações Étnico-Raciais" - Neste vídeo Alessandro de Oliveira Santos, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, fala sobre o estudo realizado sobre o este tema na região metropolitana de São Paulo.
Conseguimos identificar, que não estamos tão distantes daqueles que, como Nina Rodrigues, investigavam os escravos e ex-escravos como se fossem uma espécie diferente da do ser humano. Podemos claramente enxergar este fato, principalmente por muitas vezes nos vermos de fora desse contexto racial, entendendo, erroneamente, que o termo raça, só se aplicas aquelas não-brancas.
Embora estejamos avançados na teoria, como por exemplo, como citado no texto, nossa Constituição "Cidadã" de 1988 intitula o crime de racismo como inafiançável e imprescritível, sabemos que na prática não é o que realmente acontece, haja vista os casos de morte de pessoas pretas e indígenas ainda no ano de 2023. É necessário então, que passemos a estudar mais este cenário, para desenvolvermos técnicas e projetos, afim de que este tema se torne comum, e que nossa sociedade possa enfim, se tornar um local confortável para se viver.
Referências:
ARANTES, J. Racismo e “branquitude” na sociedade brasileira. Disponível em: <https://agencia.fapesp.br/racismo-e-branquitude-na-sociedade-brasileira/20628/>. Acesso em: 3 maio. 2023.
ARANTES, J. As relações étnico-raciais sob o crivo da psicologia. Disponível em: <https://agencia.fapesp.br/as-relacoes-etnico-raciais-sob-o-crivo-da-psicologia/23466/>. Acesso em: 3 maio. 2023.
FAPESP, A. Atuação do psicólogo no tema das relações étnico/raciais. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7IwUA6J8sT0>. Acesso em: 23 nov. 2022.
MARTINS, E.; SANTOS, A. DE O. DOS; COLOSSO, M. Relações étnico-raciais e psicologia: publicações em periódicos da SciELO e Lilacs. Psicologia: teoria e prática, v. 15, n. 3, p. 118–133, 1 dez. 2013.
NEMITZ, E. et al. Psicologia e relações Étnico-Raciais. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://crppr.org.br/wp-content/uploads/2019/05/AF_CRP_CadernoEtnico_Social_pdf.pdf>.
Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro [Resenha] – Conversa de Português. Disponível em: <https://conversadeportugues.com.br/2022/03/pequeno-manual-antirracista-de-djamila-ribeiro/>.
Parabéns pelo trabalho, pessoal! Vejo que se apropriaram bem da discussão proposta no texto de referência e no documentário sugerido. Produziram um bom texto e apresentaram, devidamente resenhadas, sugestões de aprofundamento que são pertinentes ao tema. O texto se beneficiaria de citações diretas e indiretas: é dito que certo dado vem de uma pesquisa realizada em tal universidade por fulano, em seguida deve-se indicar (FULANO, 2012) ou (FULANO, 2012, p. X) quando se usa o próprio texto do fulano. Isso foi feito na legenda do gráfico sobre os artigos que abordam o tema das relações étnico-raciais, por exemplo. As referências ao final do texto estão corretamente elaboradas. Nota 3. Abraço, Dímitre Moita
Parabéns pelo trabalho, pessoal!
ResponderExcluirVejo que se apropriaram bem da discussão proposta no texto de referência e no documentário sugerido. Produziram um bom texto e apresentaram, devidamente resenhadas, sugestões de aprofundamento que são pertinentes ao tema. O texto se beneficiaria de citações diretas e indiretas: é dito que certo dado vem de uma pesquisa realizada em tal universidade por fulano, em seguida deve-se indicar (FULANO, 2012) ou (FULANO, 2012, p. X) quando se usa o próprio texto do fulano. Isso foi feito na legenda do gráfico sobre os artigos que abordam o tema das relações étnico-raciais, por exemplo. As referências ao final do texto estão corretamente elaboradas.
Nota 3.
Abraço,
Dímitre Moita